O PACTO
Era o final da tarde quando aconteceu. Estávamos a beira da floresta, o pasto era envolto em uma fina névoa. Quase como uma camada de mistério.
Mesmo seguros, em nossas mentes sentíamos a chegada dele. Olhamos juntos a orla da floresta antiga. Nela gerações do nosso povo e dos deles viveram e morreram. Um pacto firmado, um sacrifício voluntário, para apaziguar, parar o escorrer do sangue.
Mas ainda não era a época, a colheita viria no início do verão nunca no inverno, era época de estar junto, aquecer o próximo. Mas ali estava ele, alto e ereto. Negro como à noite, olhos brilhando, dentes à mostra. O guardião parou na terra de ninguém entre ele e nós.
O pacto precisava de testemunhas, e ninguém era corajoso como a linhagem dos guardiões. Escolhidos eles se provaram ao longo das eras. Agora era hora mais uma vez. A linguagem era de rosnados, gestos, uivos e cheiros. A mensagem era clara. Não era hora. O outro respondeu. A fome ataca, a presas aqui. Vim tomá-las. O guardião me encarou, o diferente entre nós era nosso líder, assim como o outro, negra era minha pelagem. A resposta era clara. O pacto devia ser respeitado.
O outro uivou e como temia, mais deles saíam da mata, o pacto seria quebrado, o guardião também fez seu chamado. Nossos salvadores chegavam, um bando sem fim, muitos para contar. O inimigo viu o erro quando era tarde. No entardecer enevoado, a floresta recebeu sangue em suas raízes. Sangue de batalha. Sangue de predador. Satisfeita engoliu os perdedores sem distinção.
Não há mais pacto, mas agora eles sabem o que os aguarda. Presas nos chamavam. Do que nos chamarão agora?
Comentários
Postar um comentário