PAN
O ônibus era o que ia para o Sul. Sempre o Sul. Pan era a motorista naquele horário em que a maioria está no trabalho. Aquele meio e final de tarde em que a ansiedade pelo fim do dia estava no ar. Em resumo, o ônibus estava vazio.
Pan deu duro para conseguir esse horário, horas de meditação, projeção astral de longa duração, reuniu as marcas, encontrou os augúrios e os feitiços.
Estava tão pronta quanto poderia estar. A mãe e o filho entraram uma parada antes da certa, uma lástima mas nada era por acaso. Uns quarteirões depois e ele entrou. Uniforme, pele ressequida, olhos fundos e o olhar perdido. Nem mesmo olhou Pan, oculta pelas proteções até a hora certa. Seria logo, a família estava no fundo, o garoto estava atento, crianças sempre sentem.
Ele sentou e olhava o nada, a paisagem passava e lentamente ele sentiu o odor, vida. Pan parou no sinal, uma rua vazia numa cidade lotada, seria impossível não? Nada é de fato.
O homem estava em cima deles em instantes, a mãe estava no celular e demorou a ver a mão que se esticava para seu filho de olhos assustados. Pan gostou da reação, dois dedos nos olhos, pisão no pé, joelhada na cabeça e o coitado caiu. Em outra ocasião Pan teria comemorado e tirado o palhaço do ônibus. O homem se levantou rapidamente. E a mulher sentiu o corpo amolecer, ele comia sua vida, literalmente, possibilidades de futuro extinguidas em instantes. Pan correu e agarrou o homem, finalmente era hora. Olhos brancos encontraram olhos mortos, tatuagens místicas brilhavam e palavras antigas preenchiam o ar. A mãe agarrava o filho que baixinho tentava repetir as palavras com Pan. A coisa resistia, era forte, milênios de banquetes de possibilidades a nutriam mas Pan era mais forte. No fim a coisa se mostrou e gritava maldições para Pan que apenas encarava com olhos brancos que tudo via. As possibilidades deixavam aquele corpo que se desfazia em pó. No fim era Pan e os dois num ônibus parado no sinal de uma rua deserta, olhos assustados encontraram olhos brancos.
Buzinas, xingamentos, Pan mandava os motoristas seguirem. A família desceu, o garoto olhou para trás, Pan piscou e ele sorriu. Nada é por acaso.
Arte:Jackie Hernández

Comentários
Postar um comentário